A importância da música

T.E.Filhos do Mar
T.E.Filhos do Mar

A primeira vez que pisei em um terreiro vi muitas coisas diferentes. A variedade de imagens coloridas de santos católicos e entidades, o aroma das ervas queimando, dos cachimbos dos pretos velhos, mas o que primeiramente tocou meu coração foi a música. Eu, sentado no banco de madeira do lado de fora da corrente, ficava hipnotizado com o toque do atabaque que repicava e marcava tão compassadamente os trabalhos das entidades. As letras que refletiam a simplicidade e seriedade daquela casa. A voz do cantor que, apesar de não ser afinada, transmitia o seu sentimento pela religião. Uma voz tão sincera que tocava o coração. Eu, ali sentado, escutando aquelas músicas, até que, em um momento do ritual, os tambores se tornaram mais cadenciados, os rostos se serenaram e uma cançao foi entoada.

“Nesta casa tem quatro cantos, em cada um tem uma flor
nesta casa não entra maldade, nesta casa só entra amor.”

Neste momento, meus olhos marejaram e fiquei muito emocionado. Não havia escutado, até aquele momento, uma música tão simples e tão linda. Realmente aquela religião tocara meu coração. Foi um sentimento tão avassalador que nunca mais consegui faltar uma reunião sequer. Eu ia todos os dias de trabalho.
Busquei saber quem fazia aquelas músicas tão lindas e fui informado que as próprias entidades que passavam as letras e que tais músicas eram chamadas pontos. Fui informado também que os cantores se chamavam Ogãs e eram responsáveis por várias coisas dentro do terreiro, inclusive entoar os pontos. Após tantas perguntas, eu acabei entrando para corrente como aprendiz de atabaque. Vivenciei o que poucos médiuns umbandistas vivenciaram. Pude entender o verdadeiro sentido e necessidade dos pontos dentro de um terreiro.
A música dentro da umbanda é uma ferramenta crucial. Ela ajuda no transe, na concentração, na elevação dos pensamentos. A música é o esqueleto da corrente, pois ela que dá sustentação ao trabalho durante todo ritual. É o couro do atabaque que conta se a reunião está tranquila ou se estamos sofrendo demandas. Tudo isso é verdade e todos membros sabem. O que alguns não sabem é que o Ogã é responsável por guiar a corrente e não de sustentar sozinho. Eles apenas ditam a direção e o compasso. São maestros e o restante da corrente é a orquestra.
Quantas e quantas vezes, eu vejo irmãos sem cantar? Quantas e quantas vezes eu vejo irmãos sem bater palmas? E, enquanto aprendiz de atabaque, eu observava tudo aquilo. Médiuns trabalhando com suas entidades e o cambono em silêncio ao seu lado. Durante seis meses, trabalhei como aprendiz de atabaque e pude notar que, quando os membros cantavam, ao término dos trabalhos, o médium estava mais disposto, mais descansado. Quando o canto era fraco, todos saiam esgotados da reunião, inclusive quem tocava o atabaque que se sobrecarregava.
No dia que me apaixonei pela Umbanda, o canto entoado no terreiro estava forte. Todos os membros se mostravam satisfeitos com o que faziam. A música dessa corrente, forte e coesa que me fez apaixonar.

T.E.Filhos do Mar
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A sintonia da melodia com o estalar de dedos dos pretos velhos. O batuque com o brado do caboclo caçador. As palmas sincronizadas com o riso do erê. É isso que toca os corações. É também no canto que demonstramos a nossa força e a nossa fé. São nas letras dos pontos que transmitimos os nossos fundamentos, valores e ensinamentos. A música na Umbanda é parte ativa do trabalho. O ponto é uma oração cantada e vivenciada. Quando cantamos um ponto, isso é o próprio Orixá manifesto, porque Orixá é sentimento, energia, vibração.
Hoje sou médium de Umbanda, mas sou um médium consciente da necessidade do canto. Por isso sempre que participo dos trabalhos, canto com toda força que tenho dentro do meu coração, porque sei que aqueles que ali estão buscando um consolo podem ser tocados pela sinceridade e amor do meu canto. Canto, sim, com a alma, porque só assim que tem sentido para minha vida. Às vezes, eu conto esta história para alguns de meus irmãos e percebo que, mesmo depois de escutar tudo, eles não compreendem bem a importância do canto para nossa religião. Assim como eu ainda não compreendo tudo que a minha mãe de santo diz ser importante.
mas vamos seguir em frente nesta marcha de amor e fé e nunca desistir e sempre buscar se aprimorar, mas cantando, e com o coração, para que nosso canto possa chegar até Aruanda e chamar sempre nossos guias para junto de nós para mais um dia de trabalho.

 

 

Marco Flavio Alves Farnezi – Jornal de Umbanda Sagrada, Maio 2013

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